Arrolamento em pesquisa quantitativa: Entenda o que é e a como aplicar essa técnica

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O que é arrolamento e como defini-lo?

No universo de pesquisas, sobretudo nas quantitativas, o arrolamento é uma forma de randomizar quais domicílios serão selecionados para a entrevista e, no caso de domicílios com mais de uma pessoa ou mais de um grupo familiar, quais e quantas pessoas serão entrevistadas.

Com o avanço da estatística e das práticas e normas a serem seguidas para a obtenção de bons resultados no processo de pesquisa, surge, no trabalho de campo, essa técnica de sorteio dos domicílios e entrevistados.

O arrolamento deve respeitar uma distância mínima entre os domicílios – que costuma variar de 2 em 2 casas ou de 3 em 3. Essa decisão dependerá das características do campo como: densidade populacional; facilidade em conseguir respondentes; número de domicílios e extensão da área a ser trabalhada.

Além de pular casas e de sortear núcleos familiares e respondentes aptos a realizarem a pesquisa, o arrolamento costuma definir um sentido geográfico a se seguir, lado da rua e outras possibilidades que possam conduzir a boa aplicação. Esta é uma etapa importante para que os preceitos de aleatoriedade da amostra, abordados no artigo “9 tipos de amostragem probabilística e não-probabilística” deste blog, sejam alcançados.

Quando utilizar a técnica de arrolamento?

Como vimos acima, a realidade da população estudada pode afetar diretamente na forma como a condução do arrolamento se dará. Antes de discutirmos sobre os tipos de arrolamento mais conhecidos, vale discutirmos sobre quando utilizá-lo:

  1. Quando se busca realizar entrevistas em uma região com escassez de informações sobre sua composição;
  2. Quando se tem dados suficientes sobre a composição de moradores de determinada região e ainda quer-se reduzir as fontes de viés durante a aplicação dos questionários. Isso vale até mesmo para os casos de amostras por cotas, em que se tem a possibilidade de controlar características relevantes para o estudo, buscando maior precisão dos resultados. Entretanto, o livre arbítrio dado aos entrevistadores em campo continua sendo uma possível fonte de viés.
  3. Quando a região geográfica a ser pesquisada compreende uma extensão muito grande e existem muito mais domicílios e/ou respondentes do que a demanda estabelecida pelo plano amostral. Nesse caso, a técnica deve possibilitar uma boa compreensão do espaço geográfico no que diz respeito à cobertura da aplicação, garantindo uma distribuição mais uniforme e menos focalizada em pontos específicos.

Tipos de arrolamento

Na literatura estrangeira, temos a definição de pelo menos 5 alternativas de sorteio dos indivíduos residentes de um domicílio e/ou região e suas variações. São elas:

A grade de Kish

É um procedimento de seleção de pessoas dentro da família.

Por meio de uma folha de rosto, o entrevistador ordena os membros da família e nela preenche duas tabelas: uma com a lista dos ocupantes adultos e outra onde a seleção será feita, conforme os exemplos abaixo:

É importante mencionar que a ordem dada às pessoas em cada domicílio é criada de acordo com as especificidades e demandas de cada pesquisa. Ao longo do tempo, muitos pesquisadores e estatísticos têm tentado contribuir para a evolução desse método, que ficou conhecido como um dos mais eficientes no século passado.

Nesse cenário, é possível observarmos diversas opções de ordenamento. A escolha de qual ordenamento seguir se dará sobre as dificuldades e disposições da distribuição etária, laboral e/ou de gênero das populações. Por exemplo: muitos pesquisadores optam por indicar, como o respondente apto de número 1, o morador mais novo e continuar o ordenamento seguindo a ordem crescente de acordo com a idade. Isso porque os mais velhos são mais difíceis de serem encontrados em casa.

O maior ponto fraco desse método é o fato de ter sido desenvolvido pensando na sociedade Norte Americana na década de 1940. O autor, Leslle Kish, estimou que apenas 1% dos domicílios teriam mais de 5 membros adultos, o que não é uma realidade para os países emergentes que costumam ter núcleos familiares significativamente maiores.

Esse modelo já passou por diversas adaptações para ajustar-se às realidades as quais for empregado, como na alteração dos números de adultos no agregado familiar. Por esse motivo tem seu uso indicado com cuidado.

O procedimento de ordem de idade

Para a realização do procedimento, o investigador relaciona todos os adultos pertencentes ao agregado familiar que estão disponíveis para responder à pesquisa. Em seguida, é atribuído um número para cada adulto, contando de 1 até o número total de adultos em ordem crescente de idade. Por fim, seleciona-se um número dentro desse universo criado para se escolher o adulto correspondente ao número gerado.

O procedimento de ordem de idade tem como vantagem, em relação à tabela de Kish, o baixo custo em sua elaboração. Além disso, é sua aplicação é mais ágil, uma vez que despensa treinamentos longos aos aplicadores e elimina adultos que não tenham disponibilidade para responder ao questionário.

O procedimento Troldahl-Carter

Esse procedimento é uma das alterações desenvolvidas sobre a grade de Kish. Se baseia em duas perguntas:

“Incluindo você, quantas pessoas de 18 anos ou mais vivem neste domicílio?”

“Quantas delas são mulheres?”

Com isso, o entrevistador deve separar o número de mulheres mais velhas, mulheres mais novas, homens mais velhos e homens mais novos.

Esse método passou por diversas alterações até ter a sugestão de Barbara E. Bryant (1975). Essa nova versão acabou por ser consolidada como a melhor para reduzir o viés residual da presença preponderante de mulheres em detrimento de homens.

Essa medida tornou-se necessária visto que as mulheres estariam mais propensas a serem encontradas em domicílio do que os homens, que costumavam integrar a maioria da População Economicamente Ativa da época.

Dessa forma, a autora sugeriu que a pergunta “quantas mulheres têm na família” fosse empregada. De posse do número de mulheres da família, o pesquisador deveria utilizar uma tabela que é uma alteração da versão original da tabela de Kish citada anteriormente.

Veja abaixo na tabela 3:

O procedimento YMOF (Younger Male, Oldest Female)

Também conhecido como o procedimento “homem mais jovem/mulher mais velha”, tem duas etapas. Na primeira, todos os adultos do núcleo familiar disponíveis são listados. Na segunda, o entrevistador pergunta qual é o homem mais jovem disponível para realizar a entrevista. Caso o homem mais jovem não esteja em casa, o entrevistador pergunta pela mulher mais velha que está em casa para conduzir a entrevista.

É um método de fácil realização e ajuda a reduzir viés de não resposta, de idade e de gênero. Assim, o procedimento YMOF se torna vantajoso a partir do mantimento das cotas de gênero.

A solicitação pelo homem mais jovem deve acontecer primeiro para melhorar a taxa de respostas do sexo masculino. A desvantagem do uso desse método é que ele pode gerar uma sub-representação de homens velhos e mulheres jovens.

O procedimento último aniversário/próximo aniversário

Nesse método, ao invés de se criar uma lista com os nomes dos membros da família aptos a responderem o questionário, o pesquisador deve solicitar pelo membro apto que fez aniversário por último. Caso esse se faça impossibilitado, o pesquisador deve buscar pelo próximo familiar a fazer aniversário e que seja apto a responder. Indica-se alternar entre o último e o próximo a fazer aniversário, daí o nome do procedimento.

Esse método tem a vantagem de ser simples e encurtar o tempo de aplicação, mas encontra como desafio a necessidade de a pessoa que está em contato com o entrevistador saber a ordem dos aniversários de todos os residentes do domicílio.

O método de seleção de respondentes mais utilizado no Brasil

No Brasil, a forma mais comum de arrolar atualmente é utilizando o número de domicílios e seus residentes.

O número de residentes e de domicílios de determinada região é fornecido pelo IBGE. Um exemplo desse controle pode ser visto na imagem 1. A imagem é um recorte da tabela do CNFE – Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos do Instituto.

De acordo com os setores censitários da região na qual a pesquisa acontecerá, os pesquisadores realizam um sorteio de ruas e, por conseguinte, do primeiro domicílio da rua sorteada.

A partir daí, de acordo com definição prévia, as entrevistas devem ser realizadas respeitando um salto de 2, 3 ou mais domicílios. Ao se chegar em cruzamentos ou encerramentos de rua, deve-se definir um sentido a ser seguido bem como o que fazer nesse novo trecho, como virar duas esquinas no sentido esquerdo.

Vantagens e desvantagens do emprego do arrolamento

Vantagens

  • Contribui para a redução de viés de diferentes tipos, principalmente o de seleção por meio de preferências conscientes ou inconscientes dos entrevistadores no trabalho de campo;
  • Organiza metodologicamente o processo de aplicação.

Desvantagens

  • A depender do método utilizado pode gerar algum dos tipos de sub-representação citados na sessão anterior;
  • Podem envolver mais etapas dentro do estágio de preparação para o campo, como treinamentos, pesquisa e estruturação da técnica de arrolamento a ser utilizada;
  • Podem aumentar o tempo e o custo de aplicação;
  • Podem provocar resistência por parte do respondente selecionado. Ex: quando o respondente selecionado é escolhido por último nas técnicas que envolvem o sorteio apenas pelo fato de as outas opções não estarem disponíveis, este pode acabar perdendo o interesse em participar.

Contexto das discussões sobre a seleção de indivíduos

As discussões encontradas, geralmente, se limitam a empregar o termo “arrolamento” para descrever as técnicas de levantamento populacional utilizadas no período colonial. Também é muito utilizado para referir-se às dificuldades impostas pela escassez de recursos, pela falta de técnicas e pela vasta amplitude do território nacional.

Nesses casos, o “arrolamento” é comumente tratado como o processo de levantamento do número de domicílios e pessoas residentes nas áreas de interesse, servindo de base para a estruturação das pesquisas e levantamentos em questão.

Embora não haja, dentro da literatura, uma revisão que trate sobre essa segunda definição do termo, a prática é amplamente utilizada em pesquisas de opinião pública e até mesmo em pesquisas de áreas como a saúde pública e afins, com o objetivo de sistematizar o rodízio e preservar os parâmetros supracitados.

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